terça-feira, 15 de novembro de 2016

A CRUELDADE NAS RELAÇÕES HUMANAS E A MORTE DO AMOR





Antes  de  tudo   há  necessidade  de  justificar  o título  desta  postagem, pois  as palavras  têm peso e poder . No   caso  há  um  drama  envolvido  no  tema  , por  este  motivo  o   título  deve ser  fiel ao  conteúdo  .

A  vida  é assim  mesmo,  uma  tragicomédia . Os  dramas  ocorrem  no interior  de  cada  pessoa. O  importante  é  transformar  cada  drama  em  comédia,  rir  de  si  mesmo  e  das   mazelas, cultivar a   alegria, apesar da  dor , para  transmutar em humor  o drama  de  cada  momento . Sabiamente  o Papa Francisco , que  tem  um estilo bem humorado de  discorrer  sobre os  dramas  da vida ,   advertiu   que  o  bom  humor  é  algo   que nos aproxima   de   Deus . Dizem  também  que onde  há  bom  humor,  os anjos  ali  estão .

E  o que  tem  a  ver  esse  drama  cotidiano, com  o  Direito  de  Família ?  Tudo a  ver,  infelizmente  ou felizmente,  depende  do ângulo de  visão . Nas  salas de  audiências  dos  Fóruns , precisamente  nas  Varas de  Família ,  são  encenados   estes  dramas  ,  onde  muitas  vezes  presenciamos a morte do Amor .  Alguns  podem dizer - Não!  O amor  verdadeiro nunca  morre . Ele  apenas  se  transforma  .   Sim,  é  verdade, O  amor , quando  é  verdadeiro,  nunca  morre , apenas  se  transforma .  Mas  há  casos  em que o  amor acaba,  morre,  é assassinado ,  e  não se   transforma .  Utilizando  uma  analogia,  o mesmo  acontece  com a  alma. A ressurreição ensinada pelo  Cristianismo   nada  mais  é  que a  sublimação  da  alma  instintiva  ( o ego inferior, mortal ) ,  na  alma  espiritualizada  ( ego  superior, imortal ) . O mesmo  é  ensinado na  doutrina  reencarnacionista , pois o que  reencarna  e  torna-se  imortal  são as  experiências  sublimes . Aquilo que  não  foi  proveitoso para  a evolução do  ego , morre .

 Portanto, se o amor  foi alimentando   apenas  no aspecto físico,  passional ,  e  um  dos  amantes  ou  ambos  não  procurarem  por vontade  própria  a  sublimação desse  amor paixão  em  amor conjugal  ou amor   fraternal ,  então  o  amor  não  evolui , morre   e  fica  somente  na lembrança . Às  vezes,  sequer  lembranças  ficam, pois  o  fim desse  amor  pode  ser  tão  traumático, que o melhor  a fazer  é o  esquecimento .

Isso  é  encenado  quase  todos  os  dias ,  nas  mesas  de  audiências  das  Varas de Família, onde  os magistrados  presenciam   a  morte do  amor,  que  muitas  vezes é  assassinado . E  quando  isso acontece?  O  amor é  assassinado  quando a indiferença, o desrespeito ,  os maus  tratos ,  o pouco  caso, o interesse  em posses e  bens materiais  e  o egoísmo ,  se  sobrepõem    à   ajuda , assistência e  respeito mútuos,  ao  bem querer, aos   cuidados  mútuos  e   ao  desinteresse  em posses  materiais .  O  amor  que  antes  unia  o casal  acaba  quando  um deles  ou ambos  resolvem  trilhar  o primeiro  caminho.  Assim como pode se  transformar  em  amor  fraterno,  quando  no fim da  relação   o  ex-casal   continua  a  trilhar  o  segundo  caminho,  só que  agora  de  forma  diferente,   pois  o amor  nessa hipótese,  não  acaba, apenas  se  transforma  .

A Psicologia  ensina que  o amor  é  construído   em etapas ou ciclos  e que   a  paixão ,  cujo componente principal é o amor  físico ,  dura  aproximadamente  dois  anos  .  Findo esse  período,  se  o relacionamento  não se  transformar  em  verdadeira  afeição ,   evoluindo para   o  amor  conjugal  ( quando  a  relação  perdura )  ou  para o amor  fraternal  ( quando  o relacionamento amoroso  termina  )  ,  o casal  está  fadado  ao  rompimento total , pois  os  elementos   que  alimentam o  amor  passional  ficam  esgotados  e  o  relacionamento  acaba  por falta de nutrientes .

Da  mesma  forma ,  no período de  sete  anos, se   o  relacionamento  ultrapassar  esta  etapa , continuando   a  existir  a  atração ( que  é o fogo  que  alimenta  o relacionamento )  e  o amor  conjugal ,  que é  constituído   pelo  respeito , cuidados e  assistência  mútua,  então  a  união  já  está  bem  consolidada , inclusive  com o  componente  da  amizade  . Caso  ultrapasse  os  ciclos  posteriores,  o casal  terá  grande  chance de  vivenciar  todas as  etapas ou fases  do amor de  forma   verdadeira , até  que   a  morte  os  separe .

Mas  o amor  é  assassinado  todos  os dias ,  pelo  egoísmo, pouco  caso ,  hipocrisia,  interesses  escusos, maus  tratos   e  indiferença .  Entretanto o amor  que  ultrapassa  todos  as  dificuldades   e que não vive  só de  momentos , sim  ,  este  é  o  verdadeiro  amor .  Há  uma poesia  do  Carlos  Drummond de  Andrade,  que  retrata   um pouco desse  amor :

As Sem-razões do Amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.



E  onde  está  a  crueldade?  Quando  matam  os  instantes  de amor,  através da  indiferença,  do egoísmo , dos maus  tratos,  dos  interesses  escusos.  E  nesse  caso  o amor paixão  ou o  amor  conjugal ,  não  é   transmutado em  fraternal,  pois   ele  acaba,  finda  ,  morre .

Há  um  capítulo  no livro   "  O  Diário de  Um  Mago " , do Paulo Coelho ,   que  trata  desta  crueldade,  quando  o amor   é   assassinado .

A CRUELDADE



" - Ali , exatamente  naquele  local , o Amor  foi assassinado -  disse o velho  camponês, apontando para a  pequena  ermida encravada nas   rochas .

Tínhamos  caminhado   durante  cinco dias seguidos, parando  apenas  para  comer e  dormir. Petrus  continuava  bastante  reservado  sobre  sua  vida particular ,  mas  indagava  muito sobre o Brasil  e  sobre  meu  trabalho  .  ( ... )  Naquela  tarde, enquanto  descansávamos  no meio de  uma plantação de olivas , um  velho camponês havia se  aproximado  e  nos oferecido  um gole de  vinho. Mesmo com o calor, o hábito do  vinho  fazia parte ,  há  séculos ,  da  vida  dos  habitantes  daquele  região .
- E  por que o  amor  foi assassinado  ali ?  -  perguntei , já que o  velho  estava  querendo  entabular  alguma  conversa,
- Faz  muitos  séculos, uma princesa  que  fazia o Caminho de  Santiago, Felícia de Aquitânia, resolveu  renunciar  a  tudo e  ficar  morando  aqui,  quando  voltou de  Compostela. Era  o verdadeiro  amor ,  porque  dividiu  seus  bens   com os pobres  da  região e  cuidava dos  enfermos.
( ... )
" Então  seu irmão, o Duque  Guilhermo,  foi  mandado pelo pai para  levá-la de  volta .  Mas  Felícia  recusou. Desesperado , o duque  apunhalou-a  dentro da  pequena  ermida que  você  vê  ao longe , e  que  ela construíra   com as  próprias  mãos  , para  cuidar  dos  pobres e louvar a Deus .
Depois que  caiu em  si  e percebeu  o que havia  feito, o Duque  foi a  Roma pedir perdão ao Papa. Como penitência, o Papa  o obrigou a  peregrinar  até  Compostela.  Foi então que  algo  curioso  aconteceu: na  volta  , ao chegar  aqui, ele  sentiu o mesmo impulso e  ficou  morando na ermida  que a irmã havia  construído, cuidando dos pobres  até  o último dia  da  sua  vida  .

- Essa  é a  lei do retorno -  riu Petrus . O  camponês  não entendeu  o comentário, mas  eu  sabia  exatamente  o que ele  estava dizendo. Enquanto  andávamos , havíamos nos  envolvido  com longas  discussões  teológicas sobre a  relação de Deus  com os homens . Eu havia  argumentando  que na Tradição  existe  sempre  um envolvimento de Deus , mas o  caminho  era  completamente  distinto daquele  que estávamos  seguindo na rota  jacobea ( ... ) .

- Hoje em dia  Deus  é apenas  um conceito, quase provado  cientificamente . Mas  quando  chaga a  este ponto, a  História  dá  uma  volta e  começa  tudo de  novo. A Lei do Retorno.  Quando  o Pe. Xavier citou  a  frase  de  Cristo, dizendo que onde  estivesse seu tesouro também ali  estaria  o seu coração ele estava se  referindo  exatamente a isso . Onde  você  desejar  ver  a  face de  Deus, você a verá. E se  não quiser  vê-la  isso  não  faz  a mínima  diferença, desde  que  sua  obra  seja  feita. Quando Felícia de  Aquitânia  construiu a   ermida  e passou  a  ajudar os pobres , ela  esqueceu o Deus do  Vaticano e passou a manifestá-lo em sua  maneira  mais  primitiva e  mais  sábia : o Amor . Neste  ponto o  camponês  tem toda  razão em dizer que o Amor   foi assassinado.

 - A Lei do Retorno  funcionou  quando seu irmão   foi obrigado  a continuar  a obra  que  havia  interrompido. Tudo  é  permitido, menos  interromper  uma  manifestação de Amor. Quando isso acontece, quem  tentou  destruir é obrigado a  reconstruir  de  novo .

Expliquei  no  meu país  a  Lei do Retorno dizia  que as  deformidades  e  as  doenças  dos  homens eram castigos  por erros  cometidos em reencarnações passadas. - Tolice -  disse  Petrus. Deus  não é  vingança, Deus é  Amor. Sua  única  punição consiste  em obrigar alguém  que  interrompeu  uma obra de Amor  a  continua-la . "

O  autor   retrata  neste  texto  um conflito  familiar  que  resultou na  morte do  Amor .  Mas  a  Lei de  Retorno  agiu com  rapidez  e   o  autor da  transgressão  obrigou-se  ( a  divindade que  nele  havia  o obrigou)  a  continuar  a  obra  interrompida  através  do  Amor  fraternal . Portanto , ele  transformou o  Kharma  ( lei de causa e  efeito)  em  Dharma  ( sublimação do  Kharma ) . Caso  não ouvisse  sua  voz  interior , ou sua  divindade   ,  e  não  agisse  no sentido de  resgatar   o   Amor  assassinado,  as  consequências   poderiam ser  bem piores  e a  Lei de  Retorno  agiria  segundo o Princípio  " Dura  Lex , Sed  Lex " . Esta é  a forma  amorosa  como Deus  age no interior  de cada  um . Às  vezes  os pais  são obrigados  a  agirem com rigor nas  faltas e  transgressões  dos  filhos, impondo a  estes  algum  tipo de  reprimenda ,  mas  sempre  devem  fazê-lo   com Amor .  

E  aqueles  que  buscam  uma  solução  para  seus  conflitos  amorosos e  familiares  em  um  juizado,  sem  atentarem  para  a  Lei  Maior  de  Causa e  Efeito  ou  a  Lei do Retorno ,  estarão  buscando  apenas  uma  recompensa   que o Estado/Juiz  adjudicará ,  pois  as  leis  terrenas  diferem  das  Leis  Universais .  Como  disse  Jung  numa  de suas  obras  : 

" Nunca se deve esquecer - e há que lembrar disso a escola freudiana - que a moral não nos veio do Sinai em tábuas de pedra para ser imposta ao povo, mas é uma função da alma humana, tão velha quanto a própria humanidade . É o regulador instintivo da ação que também governa a vida coletiva do rebanho. Mas há sempre, inevitavelmente, um atraso cultural entre a expressão da consciência individual e sua codificação em lei pública. Como já observamos, os juizados e  tribunais de justiça são instrumentos úteis para se conseguir certos tipos de compensação e equilíbrio social. Às vezes parece, porém , que o que se procura nos  juízos e tribunais não está sendo julgado ali. Às vezes , talvez erroneamente nos voltamos para uma corte humana de justiça , em busca de respostas que só se encontram numa corte celeste."













domingo, 8 de novembro de 2015

Diário do Caminho Inca ( parte 2 )


4º, 5ºe 6º dias  (  2 , 3 e 4 de Setembro de 2015 )




Pronta para  alçar vôo
 
No quarto dia da jornada inca acordamos por volta das 5:30 horas e após o café da manhã ficamos aguardando o  micro ônibus que nos levaria para o passeio no Vale Sagrado , com destino ao vilarejo de Aguas Calientes, onde está localizada a cidade inca no topo da montanha de Machu Picchu . Nossa jornada foi a mais cômoda, por meio de transporte terrestre ( ônibus e trem ) , com intervalos de caminhadas nos sítios arqueológicos e na subida e descida da montanha de Machu Picchu .Entretanto  os turistas mochileiros  fazem todo percurso do Vale Sagrado , de Cusco a Águas Calientes  até Machu Picchu , caminhando . Este trajeto dura aproximadamente  5 a 6 dias de caminhada , dependendo  do ritmo do  viajante.

Viajamos pelo Vale Sagrado com o mesmo grupo dos passeios anteriores, formado por pessoas de várias localidades do Brasil : dois casais de São Paulo-SP, pai e filha de Belo Horizonte - MG , outro casal de Campinas - SP , uma moça de Joinville-SC e outra de Santa Maria -RS, além de mim e minha irmã, de Teresina -PI e mais cinco pessoas, cujos lugares de origem não recordo agora .



Companheiros da Jornada Inca
 
O Vale Sagrado é uma região muito fértil , banhada pelo rio sagrado dos incas,chamado no passado de Willcamayu ( rio sagrado ) e hoje de rio Urubamba . A área denominada de Vale Sagrado se prolonga por mais de 100 km , nas proximidades de Cuzco, entre Pisac e Machu Picchu . Está a uma altitude média de 2.800 metros acima do nível do mar e apresenta uma rica flora e fauna, além de temperatura agradável . Nesse vale há inúmeros riachos que nascem das cordilheiras nevadas que o rodeiam , onde existem  muitas  cachoeiras por entre os bosques nativos mais altos do mundo ( 4.200 metros de altitude ) , provendo-o de águas em abundância e alimentando o rio sagrado .

 
No Vale Sagrado
 
Nosso passeio pelo Vale Sagrado  teve como    paragem  inicial   o monumento arqueológico de Pisac , com trilhas íngremes   além de   inúmeras subidas e descidas nos  degraus  das  ruínas . O dia estava bem agradável,  pouco  frio e  meio  ensolarado .  Fomos no final do inverno , estação bem propícia, pois   chove  muito pouco  nesse período e a temperatura fica em torno de 3 a 18 graus . Depois de percorrermos as trilhas de Pisac, paramos no povoado de Ollamtaytambo , num local bem aprazível onde  existe  criação de animais típicos da região, como o  lhama e a alpaca  . Estes belos animais   estão  presentes em todo Vale Sagrado, enfeitando ainda mais a linda paisagem andina .
 
Lhama
 
Alpacas
 


Trilha de Pisac
 
Antes de chegar ao nosso destino, a cidadela de Águas Calientes, paramos em um lugarejo chamado Chimchero, onde há um mercado de artigos   artesanais , bem como algumas lojas de joias   feitas   com   pedras preciosas e semipreciosas . Nesse local aproveitamos para fazer um lanche e tomar   chá de coca . Por volta das 13 horas chegamos em Águas Calientes, onde ficamos hospedados numa  linda Pousada, construída em um antigo convento abandonado . O almoço , com música ao vivo e deliciosa culinária peruana, foi bastante animado, pois nessa altura da viagem o grupo já estava mais entrosado e algumas amizades já se delineavam .
 
À noite, para amenizar a dorzinha de cabeça causada pela altitude, tomamos  bastante  chá  , o que nos deixou  bem energizadas na manhã seguinte . Acordamos por volta das 4:30 hs e após o café da manhã seguimos  em  uma  van  para a estação do trem panorâmico vistadonte , que nos deixaria na entrada da cidade de Machu Picchu . No trem conhecemos um   arqueólogo  espanhol , que havia feito no ano anterior o Caminho de Santiago . Ele nos falou um pouco dessa experiência e nos deu algumas dicas, pois tanto eu como minha irmã pretendemos fazer  algum  dia  o Caminho de Compostela .
 
No  trem panorâmico de Vistadonte


A viagem no  trem panorâmico  é muito agradável, pois todo percurso é feito margeando o rio sagrado  . O cenário é magnífico, a natureza é muito pródiga naquelas paragens . A viagem   durou aproximadamente 1 hora e  meia  . Quando chegamos na  entrada de Machu Picchu  já senti  a emoção de estar  prestes a  realizar a  subida   da   "Bela  Montanha" . O burburinho das pessoas de inúmeras nacionalidades, raças , idades e credos ;   A  energia contagiante, o sentimento de unidade , tudo isso faz com que a experiência de subir a  montanha de   Machu Picchu seja especial .
 
 
Nosso guia, que se chamava Ronaldo, muito simpático logo nos denominou de  turma do Ronaldinho , numa alusão ao famoso jogador de futebol brasileiro . No início da caminhada na  trilha de Machu Picchu  a emoção é indescritível . O sentimento de que a HUMANIDADE é UMA UNIDADE ( somos todos  UM ) é predominante . Sentimentos afloram:  saudades dos  entes  queridos,  vontade de abraçar todos que ali estão , reflexão sobre alguns pontos obscuros da  nossa  alma  e  o sentimento de  SOLIDARIEDADE   inundando   nosso Ser .

Em meditação

 
Num certo momento, quase  no final da  caminhada,  vi um pequeno pássaro, talvez um pardal, fazendo rodopios em volta de outro e achei que era um casal de passarinhos num   namoro ou cortejo em pleno ar . Procurei chamar  a  atenção dos demais companheiros de  caminhada , mas todos estavam entretidos ouvindo as explicações do guia sobre a história  do povo   inca . Minha irmã foi a única que ouviu o meu chamado e também presenciou quando os dois passarinhos, um após o outro, entraram em um buraco entre as pedras. Fiquei imaginando o que eles fariam dentro do buraco da pedra. Será que iriam construir um ninho ?

Desde  que  chegamos em Cusco e  durante  todo percurso do Caminho Inca, os versos  da  música  "Volver a Los 17", da Violeta  Parra, interpretada  por  Mercedes  Sosa,   afloravam  com  frequência  na minha mente , de  forma que  vez  ou outra  eu cantarolava  baixinho, para  mim mesma :

"El amor es torbelliño de pureza original
( O amor é um torvelinho de  pureza original)
Hasta el feroz animal sussurra  su dulce trino
( Até o feroz animal sussurra  seu doce trino )
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneiros
( Detém os peregrinos, libera os  prisioneiros)
Só el amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
( Só o amor  com  seus esmeros , o velho   torna  um menino )
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero
( E ao mal só  devolve  carinho puro  e  sincero )
 
Se va enredando, enredando
(Vai se  envolvendo, envolvendo)
Como en el muro la hiedra
( como a hera no muro )
Y va brotando, brotando
( E vai  brotando,  brotando )
Como el musguito en la piedra
(  Como o  pequeno musgo na pedra )
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si"
( Como o pequeno  musgo na pedra, ai , sim, sim ,  sim )

 

 Durante a caminhada observei  que em alguns lugares  havia uma leve  camada  de musgos verdes  nas pedras dos  monumentos  da  cidade  inca, como  uma  relva ,   e  minha irmã  dizia  que  meus  olhos  tinham a  cor daquelas  montanhas. Ela  também,  vez  ou outra,  cantarolava  uma  musiquinha  que  compôs  durante a  jornada , cujos  versos  iniciais  diziam : " Vamos  subir la sierra, vamos  subir la sierra/ Vamos  subir la  montaña ... "

A descida da montanha foi menos cansativa e retornamos para a estação do mesmo trem panorâmico, onde seguimos até a cidade de Cuzco , numa viagem muito  agradável com   trajeto sempre   margeando o rio Sagrado . Chegamos em Cuzco por volta das 20 horas e só tivemos tempo para pegar a bagagem que ficou no hotel , tomar banho e terminar de  arrumar nossas  malas    pois viajamos para Machu Picchu apenas com a mochila e uma pequena bolsa com o essencial  para o pernoite na pousada em Águas Calientes e antes de subir a montanha  deixamos a bolsa em um maleiro da estação , levando apenas a mochila na caminhada  nas   trilhas da cidade inca  .

 Depois  de recebermos  nossas  malas  e nos acomodarmos novamente  no  mesmo  hotel , e com  a bagagem já  pronta ,  nos  recolhemos  para  o repouso noturno pois  estávamos  bastante  cansadas . Na    madrugada do dia seguinte pegamos  o vôo de  retorno a Teresina, partindo de  Cuzco   com conexões  em Lima e Guarulhos . No aeroporto de  Cuzco , ao adentrar  a aeronave ,  avistei o  Comandante do vôo que se encontrava na entrada e cujo sotaque demonstrava  ser   peruano. Ele   me cumprimentou desejando   " buenos dias"   e perguntou : Brasil ? Eu respondi ao cumprimento e confirmei: Sim, Brasil . Quando já estávamos sentadas dentro do avião, houve uma pausa da musiquinha peruana e ouvimos a versão em inglês  da música  brasileira de  autoria   do Tom Jobim ,  " Garota de Ipanema" , interpretada  por  Diana Krall ( The Girl  from Ipanema ) .
 
A viagem de retorno foi bem tranquila , apesar do chá de aeroporto em Guarulhos, onde permanecemos por mais de  8  horas aguardando o vôo para Teresina . Aqui chegando, continuei a sentir por mais de 10 dias , a energia adquirida no caminho inca . Somente decorrido o período de   duas semanas  voltei à realidade, agora com novo projeto para   daqui a aproximadamente dois anos, retornar  e   percorrer as trilhas da montanha mais alta , Waynna Picchu , a " Jovem Montanha " .

 

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Obs: Post reeditado em 11/11/2015
 

sábado, 7 de novembro de 2015

Diário do Caminho Inca ( Parte 1 )

Machu Picchu
 
1º  , 2º  e 3º   dias   ( 30 /31 de  agosto e  01 de Setembro de 2015  )


 
Após  a  natural ansiedade da  partida, eu  e minha companheira  de  viagem  ( irmã mais  nova) ,   finalmente  relaxamos na  chegada a  Lima .  O  receptivo  demorou um pouco  no  aeroporto da  capital  inca   e   aproximadamente   uma  hora  após o  desembarque fomos  transportadas para  o hotel  numa  van . Chegamos em Lima  no horário  do  almoço e   logo  depois  que   deixamos a  bagagem no  apartamento  nos  dirigimos   ao  restaurante  do  hotel . A  culinária  peruana é   considerada  uma  das  melhores  do mundo  e    está  em primeiro  lugar na preferência  dos  chefs  da  América  Latina .  Escolhemos  uma  refeição leve , frutos  do mar ,  e  saboreamos  com prazer . 
 

Depois do almoço  descansamos  por  duas  horas  e no final  da  tarde nosso  guia  nos  levou  para  o city tour  noturno . Nos  surpreendemos  com a  beleza  da  arquitetura  colonial  do  centro de Lima ,  cujo  patrimônio cultural  é   de  uma  riqueza  indescritível . 


TJ de Lima

Palácio do Governo ( Lima )
 
Findo o  city  tour  o  guia  nos  deixou  em  um  restaurante  para o jantar  .  O  prato  a  base  de  frutos  do mar  estava  delicioso e   exagerei cometendo o pecado da  gula.  Não  deu  outra:  à  noite  senti  os  efeitos  disso  e  passei  mal .  Talvez  a  elevada  altitude  também  tenha  causado  a  indigestão.  O  fato  é   que  não  tive  condições  de  acordar  às  3  horas da  manhã, para o embarque    do  vôo  com  destino a  Cusco .  Assim  tivemos de providenciar  a mudança  de  horário  do  vôo  e  no  dia  seguinte  seguimos  para  Cusco chegando  lá  por  volta  das 13  horas. Tomamos  um susto no momento da  chegada ,  pois o pouso  foi arremetido e  o avião em certo momento  ficou meio inclinado , fazendo  voltas  entre as montanhas  da  região  andina. No final  do pouso  e  passado  o perigo , todos  aplaudiram  a perícia do piloto ,  como  é o costume .

Chegando em Cusco ,   após o almoço  leve e  delicioso   regado  a  chazinho de  coca  que  ajuda  o  organismo a  superar o   " mal de  saroche "  ( como chamam os  sintomas causados pela  elevada   altitude ), fomos  descansar  por  duas  horas, período recomendado  para  adaptação  da mudança de   altitude . Tudo  muito  agradável. O povo  peruano  é  muito  receptivo  com  os  turistas,  especialmente os  brasileiros.
 
 
 

 
À  noite  fizemos  um passeio  pelas  lojas  e  feira  de  artesanato,  bem próximas  ao  hotel onde  nos  hospedamos.  Compramos  alguns  artigos   do  artesanato inca  e  casacos de  alpaca ,  retornando ao  hotel, pois  já  estávamos  sentindo  os  sintomas  da  altitude  de  mais de  3.500 metros  acima  do nível do  mar . Tanto  eu  como  minha  irmã  dormimos  pouco, pois  a  dorzinha de  cabeça  ( principal  sintoma  do mal de   saroche )  , nos  incomodou  bastante . 
 
Na  manhã  seguinte fomos  ao passeio  no Parque  Arqueológico  Saqsaywaman que  é palco de um festival anual durante o solstício de inverno  ,  cuja  maior  atração é  o templo da  Pachamama ( Mãe  Terra).  Subidas e  descidas  pelos  degraus  dos  monumentos  arqueológicos,  dando  início  à  jornada  inca . Temperatura  em  torno de   8  graus, com  sensação  térmica menor  devido  a  leve  brisa. O dia estava meio   ensolarado , mas  com  um pouco de  chuviscos no início da  manhã  ( sol e  chuva, casamento da viúva )  e  a  caminhada  pelas  trilhas  do  parque  já  foi  o treino  inicial para  a subida  na  montanha de   Machu Picchu  dois  dias  depois .  Sol ,  brisa  suave, tempo bom  com   friozinho  ameno,   cenário da  natureza  de  tirar o  fôlego,  o conhecimento  de um  patrimônio cultural   de  imensa  riqueza ,  um povo simpático,  hospitaleiro e  receptivo . Perfeito?  Quase ...  Teve  uma  pequena pedra  no meio do caminho, de  forma  que  o passeio desse  dia  foi  quase  perfeito. 


Saqsaywama




No  terceiro  dia  fomos  conhecer ,  junto  com o   mesmo  grupo  do  passeio  anterior ,  o centro cultural  de  Cusco , quando pudemos  verificar  como  o povo  peruano  tem orgulho  das  suas  raízes  incas .  Onde  andamos  o fundo  musical  era  a  música  andina ,  tocada  através  da  panflaute,  o instrumento  musical  típico do  Peru.  No  Mercado  Central  de  Cusco  compramos  algumas  caixinhas  com  sachês  de  mate coca , a  erva  medicinal   considerada  sagrada  pelo  povo  peruano,  pois  é  a  responsável pela  resistência   que  esse  povo  tem  vivendo a 3.500  metros  acima do  nível do mar , aliada  a  uma  alimentação  leve  e   rica  em  leguminosas,  grãos  , frutas  , verduras  e  frutos  do  mar.  Por  incrível  que pareça  , não  vimos  nenhum  peruano muito gordo ou  obeso,  todos  têm  uma  compleição  física  magra  ou  mediana. Com certeza  a  alimentação  saudável  é  um fator  determinante para  esse  biotipo.


Retornando  do  passeio  ao  Centro  Cultural de  Cusco e   após um  banho  revigorante ,  fui sozinha  fazer  algumas  compras  nas  lojas   próximas  ao hotel , pois  minha irmã  já  havia feito logo que chegou  do passeio, antes do banho .  Depois  fomos  jantar  com  música  ao vivo ,  no  restaurante do  hotel  e   um  dos  artistas   se  aproximou  da  nossa  mesa  para  nos  vender  o  CD   das melodias  que tocavam . Eu  comprei  um  de músicas  românticas, para  presentear  minha  mãe.   Na  hora de  pagar  me  confundi e  dei  uma  nota de  50  dólares pensando  que  era 50  soles . O  músico  peruano  ao dar  o troco   me fez ver  o  equívoco , demonstrando sua  honestidade.  Minha  irmã  estava  apressada  para  recolher-se  e  descansar , por  isso  nos  despedimos  do músico  nos  desculpando   pela  pressa  ,  pois  notamos que  ele  se  aproximou  também para  trocar ideias. Lamentei  não poder  conversar  mais  um pouco  com o  simpático  e  "guapo"   músico  peruano .  No dia  seguinte  teríamos  que  acordar bem  cedo,  para  o  passeio  no  Vale  Sagrado , a  caminho de  Águas  Calientes  ,  lugarejo  onde  está  localizada  a  cidade  inca  no alto da  montanha de  Machu Picchu .


(  Continuação do  Diário da  Jornada  Inca , no Vale  Sagrado e  nas  ruínas da  cidade  Inca de  Machu Picchu ,  4ª , 5º e  6º  dias ,  no post  seguinte  . Clique  AQUI  )


 


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dia dos Namorados

Hoje  quero  homenagear os  enamorados e  para isso  selecionei  três  músicas  que tratam das  diferentes  fases do  amor  ou formas de  amar. A primeira música  é bem antiga  e  fala da  descoberta  do  amor  .

Una Lacrima Sul Viso ( Bob Solo )


 
 
A segunda  fala de um novo amor encontrado  após um período de " hibernação amorosa", quando  já considerávamos  nosso  coração  aposentado e    acostumado  com a  solidão .
 
Ainda Bem ( Marisa Monte )
 
 
 
A terceira é  especial ... Lembro que na minha primeira infância  fui  embalada ao som de Noturno. Não recordo  muito  bem se  era a  doce  voz da minha  mãe  ou da  minha  avó materna  , que descobriram ( ou inventaram)  uma letra  para a  canção  Noturno  ( de  Chopin )  ,   cujos  primeiros  versos  diziam :
 
"O amor é alegria
Sem ele a  vida é  tão  vazia  ..."
 
Lamentavelmente  eu não me  recordo  da  poesia inteira . Só sei que  em toda  minha  vida não  ouvi canção mais  bela  que  fala de  amor  ( mesmo sendo uma  canção  instrumental ) ,   que  Noturno de  Chopin .
 
Noturno ( Opus 9  ) , por Tiffany Poom
 
 
 No   Arte Imita a Vida , há  um post  sobre as faces do amor  . Para cada face de Vênus, a deusa  do amor,  um estado diferente de viver a afetividadade, retratado em uma poesia . Clique  AQUI   e  descubra  qual fase  do amor  você  está  vivenciando .