terça-feira, 15 de novembro de 2016

A CRUELDADE NAS RELAÇÕES HUMANAS E A MORTE DO AMOR





Antes  de  tudo   há  necessidade  de  justificar  o título  desta  postagem, pois  as palavras  têm peso e poder . No   caso  há  um  drama  envolvido  no  tema  , por  este  motivo  o   título  deve ser  fiel ao  conteúdo  .

A  vida  é assim  mesmo,  uma  tragicomédia . Os  dramas  ocorrem  no interior  de  cada  pessoa. O  importante  é  transformar  cada  drama  em  comédia,  rir  de  si  mesmo  e  das   mazelas, cultivar a   alegria, apesar da  dor , para  transmutar em humor  o drama  de  cada  momento . Sabiamente  o Papa Francisco , que  tem  um estilo bem humorado de  discorrer  sobre os  dramas  da vida ,   advertiu   que  o  bom  humor  é  algo   que nos aproxima   de   Deus . Dizem  também  que onde  há  bom  humor,  os anjos  ali  estão .

E  o que  tem  a  ver  esse  drama  cotidiano, com  o  Direito  de  Família ?  Tudo a  ver,  infelizmente  ou felizmente,  depende  do ângulo de  visão . Nas  salas de  audiências  dos  Fóruns , precisamente  nas  Varas de  Família ,  são  encenados   estes  dramas  ,  onde  muitas  vezes  presenciamos a morte do amor .  Alguns  podem dizer - Não!  O amor  verdadeiro nunca  morre . Ele  apenas  se  transforma  -  .   Sim,  é  verdade, O  amor , quando  é  verdadeiro,  nunca  morre , apenas  se  transforma .  Mas  há  casos  em que o  amor acaba,  morre,  é assassinado ,  e  não se   transforma .  Utilizando  uma  analogia,  o mesmo  acontece  com a  alma. A ressurreição ensinada pelo  Cristianismo   nada  mais  é  que a  sublimação  da  alma  instintiva  ( o ego inferior, mortal ) ,  na  alma  espiritualizada  ( ego  superior, imortal ) . O mesmo  é  ensinado na  doutrina  reencarnacionista , pois o que  reencarna  e  torna-se  imortal  são as  experiências  sublimes . Aquilo que  não  foi  proveitoso para  a evolução do  ego , morre .

 Portanto, se o amor  foi alimentando   apenas  no aspecto físico,  passional ,  e  um  dos  amantes  ou  ambos  não  procurarem  por vontade  própria  a  sublimação desse  amor paixão  em  amor conjugal  ou amor   fraternal ,  então  o  amor  não  evolui , morre   e  fica  somente  na lembrança . Às  vezes,  sequer  lembranças  ficam, pois  o  fim desse  amor  pode  ser  tão  traumático, que o melhor  a fazer  é o  esquecimento .

Isso  é  encenado  quase  todos  os  dias ,  nas  mesas  de  audiências  das  Varas de Família, onde  os magistrados  presenciam   a  morte do  amor,  que  muitas  vezes é  assassinado . E  quando  isso acontece?  O  amor é  assassinado  quando a indiferença, o desrespeito ,  os maus  tratos ,  o pouco  caso, o interesse  em posses e  bens materiais  e  o egoísmo ,  se  sobrepõem    à   ajuda , assistência e  respeito mútuos,  ao  bem querer, aos   cuidados  mútuos  e   ao  desinteresse  em posses  materiais .  O  amor  que  antes  unia  o casal  acaba  quando  um deles  ou ambos  resolvem  trilhar  o primeiro  caminho.  Assim como pode se  transformar  em  amor  fraterno,  quando  no fim da  relação   o  ex-casal   continua  a  trilhar  o  segundo  caminho,  só que  agora  de  forma  diferente,   pois  o amor  nessa hipótese,  não  acaba, apenas  se  transforma  . Quando  não se  transforma  em  amor  fraterno e  definitivamente  acaba  qualquer  possibilidade de  uma  relação  amigável, ocorre  a morte  do amor , que na  verdade  não chegou  à sua  plenitude , não se  desenvolveu  : " O anel que  tu  me  destes, era  vidro e  se  quebrou . O  amor que  tu me  tinhas, era pouco e  se  acabou " ,  diz a  verso da  canção  popular .  E no final desse  relacionamento que poderia  vir a  ser  uma  relação amorosa,   "  meu  bem "  é   substituído  pelo apego  aos   " meus  bens " .

A Psicologia  ensina que  o amor  é  construído   em etapas ou ciclos  e que   a  paixão ,  cujo componente principal é o amor  físico , dura  aproximadamente  dois  anos  .  Findo esse  período,  se  o relacionamento  não se  transformar  em  verdadeira  afeição ,   evoluindo para   o  amor  conjugal  ( quando  a  relação  perdura )  ou  para o amor  fraternal  (quando  a  relação  conjugal  termina, mas a  afeição  continua  de  forma  fraterna ),  o casal  está  fadado  ao  rompimento total , pois  os  elementos   que  alimentam o  amor  passional  ficam  esgotados  e  o  relacionamento  acaba  por falta de nutrientes .

Da  mesma  forma ,  no período de  sete  anos, se   o  relacionamento  ultrapassar  esta  etapa , continuando   a  existir  a  atração ( que  é o fogo  que  alimenta  a relação )  e  o amor  conjugal ,  que é  constituído   pelo  respeito , cuidados e  assistência  mútua,  então  a  união  já  está  bem  consolidada , inclusive  com o  componente  da  amizade  . Caso  ultrapasse  os  ciclos  posteriores,  o casal  terá  grande  chance de  vivenciar  todas as  etapas ou fases  do amor de  forma   verdadeira , até  que   a  morte  os  separe .

Mas  o amor  é  assassinado  todos  os dias ,  pelo  egoísmo, pouco  caso ,  hipocrisia,  interesses  escusos, maus  tratos   e  indiferença .  Entretanto o amor  que  ultrapassa  todos  as  dificuldades   e que não vive  só de  momentos , sim  ,  este  é  o  verdadeiro  amor .  Há  uma poesia  do  Carlos  Drummond de  Andrade,  que  retrata   um pouco desse  amor :

As Sem-razões do Amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.



E  onde  está  a  crueldade?  Quando  matam  os  instantes  de amor,  através da  indiferença,  do egoísmo , dos maus  tratos,  dos  interesses  escusos.  E  nesse  caso  o amor paixão  ou o  amor  conjugal ,  não  é   transmutado em  fraternal,  pois   ele  acaba,  finda  ,  morre .

Há  um  capítulo  no livro   "  O  Diário de  Um  Mago " , do Paulo Coelho ,   que  trata  desta  crueldade,  quando  o amor   é   assassinado .

A CRUELDADE



" - Ali , exatamente  naquele  local , o Amor  foi assassinado -  disse o velho  camponês, apontando para a  pequena  ermida encravada nas   rochas .

Tínhamos  caminhado   durante  cinco dias seguidos, parando  apenas  para  comer e  dormir. Petrus  continuava  bastante  reservado  sobre  sua  vida particular ,  mas  indagava  muito sobre o Brasil  e  sobre  meu  trabalho  .  ( ... )  Naquela  tarde, enquanto  descansávamos  no meio de  uma plantação de olivas , um  velho camponês havia se  aproximado  e  nos oferecido  um gole de  vinho. Mesmo com o calor, o hábito do  vinho  fazia parte ,  há  séculos ,  da  vida  dos  habitantes  daquele  região .
- E  por que o  amor  foi assassinado  ali ?  -  perguntei , já que o  velho  estava  querendo  entabular  alguma  conversa,
- Faz  muitos  séculos, uma princesa  que  fazia o Caminho de  Santiago, Felícia de Aquitânia, resolveu  renunciar  a  tudo e  ficar  morando  aqui,  quando  voltou de  Compostela. Era  o verdadeiro  amor ,  porque  dividiu  seus  bens   com os pobres  da  região e  cuidava dos  enfermos.
( ... )
" Então  seu irmão, o Duque  Guilhermo,  foi  mandado pelo pai para  levá-la de  volta .  Mas  Felícia  recusou. Desesperado , o duque  apunhalou-a  dentro da  pequena  ermida que  você  vê  ao longe , e  que  ela construíra   com as  próprias  mãos  , para  cuidar  dos  pobres e louvar a Deus .
Depois que  caiu em  si  e percebeu  o que havia  feito, o Duque  foi a  Roma pedir perdão ao Papa. Como penitência, o Papa  o obrigou a  peregrinar  até  Compostela.  Foi então que  algo  curioso  aconteceu: na  volta  , ao chegar  aqui, ele  sentiu o mesmo impulso e  ficou  morando na ermida  que a irmã havia  construído, cuidando dos pobres  até  o último dia  da  sua  vida  .

- Essa  é a  lei do retorno -  riu Petrus . O  camponês  não entendeu  o comentário, mas  eu  sabia  exatamente  o que ele  estava dizendo. Enquanto  andávamos , havíamos nos  envolvido  com longas  discussões  teológicas sobre a  relação de Deus  com os homens . Eu havia  argumentando  que na Tradição  existe  sempre  um envolvimento de Deus , mas o  caminho  era  completamente  distinto daquele  que estávamos  seguindo na rota  jacobea ( ... ) .

- Hoje em dia  Deus  é apenas  um conceito, quase provado  cientificamente . Mas  quando  chaga a  este ponto, a  História  dá  uma  volta e  começa  tudo de  novo. A Lei do Retorno.  Quando  o Pe. Xavier citou  a  frase  de  Cristo, dizendo que onde  estivesse seu tesouro também ali  estaria  o seu coração ele estava se  referindo  exatamente a isso . Onde  você  desejar  ver  a  face de  Deus, você a verá. E se  não quiser  vê-la  isso  não  faz  a mínima  diferença, desde  que  sua  obra  seja  feita. Quando Felícia de  Aquitânia  construiu a   ermida  e passou  a  ajudar os pobres , ela  esqueceu o Deus do  Vaticano e passou a manifestá-lo em sua  maneira  mais  primitiva e  mais  sábia : o Amor . Neste  ponto o  camponês  tem toda  razão em dizer que o Amor   foi assassinado.

 - A Lei do Retorno  funcionou  quando seu irmão   foi obrigado  a continuar  a obra  que  havia  interrompido. Tudo  é  permitido, menos  interromper  uma  manifestação de Amor. Quando isso acontece, quem  tentou  destruir é obrigado a  reconstruir  de  novo .

Expliquei  no  meu país  a  Lei do Retorno dizia  que as  deformidades  e  as  doenças  dos  homens eram castigos  por erros  cometidos em reencarnações passadas. - Tolice -  disse  Petrus. Deus  não é  vingança, Deus é  Amor. Sua  única  punição consiste  em obrigar alguém  que  interrompeu  uma obra de Amor  a  continua-la . "

O  autor   retrata  neste  texto  um conflito  familiar  que  resultou na  morte do  Amor .  Mas  a  Lei de  Retorno  agiu com  rapidez  e   o  autor da  transgressão  obrigou-se  ( a  divindade que  nele  havia  o obrigou)  a  continuar  a  obra  interrompida  através  do  Amor  fraternal . Portanto , ele  transformou o  Kharma  ( lei de causa e  efeito)  em  Dharma  ( sublimação do  Kharma ) . Caso  não ouvisse  sua  voz  interior , ou sua  divindade   ,  e  não  agisse  no sentido de  resgatar   o   Amor  assassinado,  as  consequências   poderiam ser  bem piores  e a  Lei de  Retorno  agiria  segundo o Princípio  " Dura  Lex , Sed  Lex " . Esta é  a forma  amorosa  como Deus  age no interior  de cada  um . Às  vezes  os pais  são obrigados  a  agirem com rigor nas  faltas e  transgressões  dos  filhos, impondo a  estes  algum  tipo de  reprimenda ,  mas  sempre  devem  fazê-lo   com Amor .  

E  aqueles  que  buscam  uma  solução  para  seus  conflitos  amorosos e  familiares  em  um  juizado,  sem  atentarem  para  a  Lei  Maior  de  Causa e  Efeito  ou  a  Lei do Retorno ,  estarão  buscando  apenas  uma  recompensa   que o Estado/Juiz  adjudicará ,  pois  as  leis  terrenas  diferem  das  Leis  Universais .  Como  disse  Jung  numa  de suas  obras  : 

" Nunca se deve esquecer - e há que lembrar disso a escola freudiana - que a moral não nos veio do Sinai em tábuas de pedra para ser imposta ao povo, mas é uma função da alma humana, tão velha quanto a própria humanidade . É o regulador instintivo da ação que também governa a vida coletiva do rebanho. Mas há sempre, inevitavelmente, um atraso cultural entre a expressão da consciência individual e sua codificação em lei pública. Como já observamos, os juizados e  tribunais de justiça são instrumentos úteis para se conseguir certos tipos de compensação e equilíbrio social. Às vezes parece, porém , que o que se procura nos  juízos e tribunais não está sendo julgado ali. Às vezes , talvez erroneamente nos voltamos para uma corte humana de justiça , em busca de respostas que só se encontram numa corte celeste."













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